
A Praia do Atalaia é um dos principais símbolos turísticos de Salinópolis, mas também representa um dos maiores desafios ambientais do município. A intensa ocupação humana, o crescimento da atividade turística, a presença de comerciantes, ambulantes, moradores e milhares de visitantes durante os períodos de maior movimento tornam indispensável uma política permanente de gestão ambiental.

As ações de limpeza realizadas recentemente nas praias de Salinópolis demonstram que a sociedade está disposta a participar. Biólogos, universitários, desportistas, moradores, empresários, trabalhadores e turistas se uniram em uma ação coletiva de conscientização e retirada de resíduos.
Essas iniciativas são necessárias, importantes e devem ser valorizadas.
Mas é preciso dizer com clareza: limpar a praia é apenas uma parte da solução.
O grande desafio começa depois que os sacos de lixo são retirados da areia.
É preciso impedir que novos resíduos sejam descartados de forma irregular, combater o lançamento de esgoto, garantir estruturas sanitárias adequadas, fiscalizar as atividades comerciais, orientar permanentemente os frequentadores e estabelecer regras claras para quem utiliza economicamente o espaço público.

No Atalaia, não basta realizar grandes mutirões de limpeza. É necessário construir uma política permanente de proteção, fiscalização, saneamento e educação ambiental.
O Atalaia não pode ser cuidado apenas em datas comemorativas, durante operações especiais ou na alta temporada.
A praia precisa de gestão todos os dias.
MONUMENTO NATURAL ATALAIA: PROTEÇÃO QUE PRECISA SAIR DO PAPEL
O Atalaia não é apenas um dos principais destinos turísticos de Salinópolis. Parte de sua área integra o Monumento Natural Atalaia (MONA Atalaia), unidade de conservação estadual de proteção integral criada pelo Decreto Estadual nº 2.077/2018.
A unidade possui 256,58 hectares e tem entre seus objetivos proteger dunas, restingas, manguezais, lagos, fauna e flora, além de contribuir para o ordenamento do turismo e para a educação ambiental.
Isso significa que a discussão sobre o Atalaia precisa ultrapassar o simples recolhimento de resíduos deixados na areia.
Quando uma área recebe o reconhecimento de proteção ambiental, a sociedade espera que essa proteção seja efetivamente percebida no território.
Proteção ambiental precisa significar planejamento, fiscalização, monitoramento e cumprimento das regras.

SANEAMENTO PRECISA ESTAR NO CENTRO DA DISCUSSÃO
Há registros acadêmicos que demonstram que a questão sanitária na região não é recente.
Pesquisa realizada pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), publicada em 2017, analisou 19 pontos da areia da Praia do Atalaia e encontrou coliformes totais e Escherichia coli em todos os pontos pesquisados. Segundo o estudo, 68,42% dos pontos apresentaram classificação não recomendada para E. coli, e a urbanização foi apontada como um dos fatores que mais influenciaram os resultados.
Outro estudo acadêmico sobre a região identificou, em 2019, lançamento de efluentes associados à ocupação da faixa de praia e destacou a necessidade de sistemas adequados de drenagem e tratamento de esgoto.
É importante ressaltar que esses estudos são históricos e não devem ser utilizados automaticamente como diagnóstico da situação atual.
Mas eles deixam uma pergunta que precisa ser respondida:
Como está hoje a qualidade ambiental e sanitária da Praia do Atalaia?
A resposta precisa estar baseada em monitoramento técnico atualizado.
A própria legislação federal de balneabilidade, por meio da Resolução CONAMA nº 274/2000, estabelece critérios para avaliar a qualidade das águas destinadas à recreação de contato primário e prevê medidas específicas quando houver deterioração da qualidade ou extravasamento de esgoto. A resolução também recomenda avaliação das condições microbiológicas da areia.
Portanto, discutir lixo sem discutir saneamento significa tratar apenas uma parte do problema.
E O QUE ACONTECEU COM O SISTEMA DE ESGOTAMENTO?
Existe ainda uma questão que precisa ser esclarecida pelo poder público.
Em 2020 e 2021, a Cosanpa informou que estavam sendo implantados sistemas de abastecimento de água e tratamento de esgoto para as barracas do Atalaia. O projeto anunciado contemplava 82 barracas, com sistema individual de tratamento dos dejetos e esgoto.
A pergunta jornalística é objetiva:
Qual é a situação atual desse sistema?
* Está funcionando integralmente?
* Quantas barracas estão efetivamente conectadas?
* Existe manutenção periódica?
* Há fiscalização sanitária?
* Há monitoramento dos efluentes tratados?
* Existem pontos de lançamento irregular?
* Como está atualmente a qualidade microbiológica da água e da areia?
Essas respostas precisam ser apresentadas à sociedade com dados técnicos atualizados.
NÃO BASTA FISCALIZAR NO VERÃO
O próprio Ideflor-Bio realizou fiscalização no Monumento Natural Atalaia em julho de 2025, verificando documentação, normas ambientais e condições de funcionamento de operadores turísticos.
Também existe um Conselho Gestor do MONA Atalaia, cuja regulamentação prevê participação social, acompanhamento da elaboração e implementação do Plano de Manejo e proposição de programas e projetos para a unidade.
E aqui está um dos pontos mais importantes desta pauta:
Em abril de 2025, o Ideflor-Bio informou que estava realizando oficinas participativas para a construção do Plano de Gestão do Monumento Natural Atalaia.
Portanto, a discussão não deveria terminar em uma operação de limpeza.
É preciso saber:
Em que estágio está esse planejamento?
Quais metas foram estabelecidas?
Quais ações serão executadas?
Quem será responsável pela fiscalização?
Como a sociedade poderá acompanhar os resultados?
Um plano de gestão somente alcança seu objetivo quando deixa de ser um documento e passa a produzir mudanças concretas no território.
RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA
O Atalaia também precisa de uma mudança cultural.
Empresários, trabalhadores das barracas, ambulantes, moradores, turistas, comerciantes e frequentadores precisam ser tratados como atores da conservação, mas também como corresponsáveis pelo cumprimento das regras.
Não é possível preservar uma praia apenas responsabilizando o poder público.
Da mesma forma, não é razoável transferir toda a responsabilidade para o cidadão.
A solução passa por uma responsabilidade compartilhada, com regras claras, infraestrutura adequada, fiscalização e educação ambiental permanente.
É possível discutir, dentro das competências legais de cada ente público, medidas como:
* redução progressiva de materiais descartáveis;
* incentivo a embalagens reutilizáveis ou ambientalmente adequadas;
* controle e destinação correta do óleo de cozinha;
* pontos estruturados para armazenamento temporário de resíduos;
* coleta seletiva;
* fiscalização sanitária permanente;
* banheiros e estruturas sanitárias adequadas;
* monitoramento periódico da água e da areia;
* identificação e eliminação de pontos de lançamento irregular de efluentes;
* sinalização ambiental;
* campanhas permanentes para turistas e trabalhadores;
* capacitação dos ambulantes e operadores turísticos;
* fiscalização durante todo o ano, e não somente na alta temporada.
Qualquer restrição ou proibição de produtos específicos, entretanto, precisa ser construída por norma legal competente, com critérios técnicos, fiscalização viável e diálogo com os setores envolvidos.
O ATALAIA PRECISA DE UM NOVO PACTO
A criação do Monumento Natural Atalaia estabeleceu uma premissa fundamental: proteger uma área submetida a forte pressão humana e ordenar o turismo.
Agora é preciso transformar essa proteção jurídica em gestão efetiva no território.
Não se trata de impedir o turismo, retirar os trabalhadores ou inviabilizar a atividade econômica.
Ao contrário.
Preservar o Atalaia é garantir que a atividade turística, comercial e econômica possa continuar existindo no futuro.
Uma praia degradada perde valor ambiental, turístico, econômico e social.
Por isso, a pergunta que fica para o poder público, para os empresários, para os trabalhadores e para toda a sociedade de Salinópolis é:
QUE ATALAIA QUEREMOS ENTREGAR PARA A PRÓXIMA GERAÇÃO?
Como ambientalista, empresário, jornalista e morador de Salinópolis, deixo este relato como contribuição ao debate público.
Limpar a praia é necessário.
Evitar que ela volte a ser suja é fundamental.
Garantir saneamento, ordenamento, fiscalização, educação ambiental e cumprimento das regras é o verdadeiro desafio.
O Atalaia precisa de ações paliativas, sim.
Mas precisa, principalmente, de política ambiental permanente, metas, fiscalização, monitoramento e participação social.
Atalaia não pode ser lembrado apenas quando chega o verão ou quando acontece um mutirão de limpeza.
O Atalaia precisa ser cuidado todos os dias.

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